Espetáculo encerrará o 7º Seminário Educação em Foco

“A cultura é o conteúdo substancial da educação, sua fonte e sua justificação última. Uma não pode ser pensada sem a outra”, disse Pierre Bourdieu. O Sindicato dos Professores Municipais de Santa Maria traz a Cia Sorriso com Arte para encerrar o 7º Seminário Educação em Foco com chave de ouro no principal espaço cultural de Santa Maria: o Theatro Treze de Maio.  

O hibridismo entre o teatro, a dança e a arte circense integra os espetáculos apresentados pela Cia Sorriso com Arte. O espetáculo Showtime traz para o palco toda a sensualidade, não só com as danças, mas também com seus figurinos luxuosos com referência aos antigos musicais da Broadway e Las Vegas.  

Os inscritos no seminário devem retirar o seu ingresso com a equipe de credenciamento no hall do Clube Dores até a tarde da sexta-feira (9). A apresentação tem início às 18h30. 

“SONHAR É UM ATO POLÍTICO” 

A mesa que abriu a programação desta quarta-feira (7) tratou dos desafios da educação das infâncias no atual contexto brasileiro. A necessidade do sonho foi a abordagem central da Drª Sandra Richter. “Só alcançamos a inteligibilidade do real se tivermos a capacidade de sonhar”, afirma ela, principalmente no contexto de “um tempo sem tempo”. A professora da UNISC entende o pedagogo como artífice do humano e que lidar com gente é lidar com sonhos e utopias. Acredita que a educação infantil não é lugar para ensinar a viver, “pois eles já vivem”: “educação é uma relação relacional, não só sobre o ponto de vista dos adultos ou das crianças. A complexidade de educar está no encontro de dois tempos”. Deixa uma questão: “como estamos apresentando os começos linguageiros para as crianças, em um mundo de pressa?” 

Para a professora Cleonice Tomazetti é possível acreditar na premissa de que há uma crise na educação, projetada em décadas anteriores, que tornou-se permanente e hoje é urgente. Trouxe o exemplo de dois eventos díspares de violência tendo como alvo a escola: as mortes em Suzano e o ataque em São Carlos onde um vereador arrancou trabalhos expostos por discordar do conteúdo religioso. A complexidade do mundo, segundo ela, dificulta a função de mediadora da educação, pois “manchetes como essas não são fáceis de serem explicadas”. Cleonice elenca como desafios para os educadores a demonstrar que todas as vidas importam, não só as midiatizadas; a proteção de todas as formas de manifestação humana, sendo a primeira delas a da existência; a luta pela garantia de todos os direitos; a resistências a formas autoritárias; dentre outras. “Cabe às novas gerações receber esse mundo e perceber tudo o que há nele para seguir o transformando. A nós cabe sustentá-lo”. 

Mesa mediada pela professora Juliana Moreira com as professoras Sandra Richter e Cleonice Tomazetti. Crédito – Mariana Olhaberriet

DOUMENTAÇÃO PEDAGÓGICA 

A mesa temática da segunda tarde de seminário abordou a documentação pedagógica como instrumento de prática e avaliação, ministrado pela professora Juliana Moraes e participando do debate a doutoranda professora Niquele Streck Machado e a mestranda professora Giovana Alonso. 

A professora Niquele comentou sobre a importância da educação e de se continuar estudando para melhor educar. Explicou que mesmo que nem todo registro seja uma documentação pedagógica, toda documentação pedagógica depende de registros de boa qualidade. Também reforçou a importância dessa documentação, uma vez que apenas a memória não é o bastante, e que entre as principais formas de como o fazer estão anotações rápida, gravar as vozes, tirar fotos ou até fazer vídeos para uma análise posterior. 

Logo após, a professora Giovana falou sobre sua experiência em documentação pedagógica com criança da educação infantil e de que registros como o desenho é uma forma de linguagem em que as crianças contam coisas que talvez de outra forma elas não contassem. Explicou que a forma de registro escolhida deve ser a que mais lhe for confortável, pois não deve ser um fardo, e que é importante que a documentação seja compartilhada tanto com a criança, quanto com os professores e a família, para uma interpretação mais ampla do que se apresenta. 

Niqueli, Juliana e Giovana na mesa sobre documentação pedagógica. Crédito – Mariana Olhaberriet

INVISIBILIDADE DO EJA 

Foi consenso na mesa que encerrou a programação de terça-feira sobre as dificuldades atuais do ensino de jovens e adultos (EJA). Com o analfabetismo funcional em 19% e 52,6% dos brasileiros sem concluir a educação básica, as matrículas na modalidade caíram de 4,8 milhões para 3,5 milhões nos últimos 10 anos. “Se temos demanda, por que os índices estão caindo?”, pergunta a mestranda Lenir Keller. A professora da rede municipal relata que a Base Nacional Comum Curricular não traça diretrizes e a agenda educacional do atual Governo Federal está levando o EJA para a invisibilidade. “A municipalização das agendas políticas educacionais não tem sido acompanhada por aporte financeiro”, aponta ela como uma das causas, somada à falta de políticas novas para a modalidade. “Acredito que o momento é de nos mobilizarmos, por que o momento não é favorável”, conclui. 

Também professora da rede municipal, a doutora Ana Paula Zimerman enfatiza o peso da teoria freireana no EJA. Um dos aspectos é a existência de diferenças no processo de aprendizagem entre jovens e adultos com outras modalidades, e a consideração das especificidades locais. “Em Santa Maria, o ensino na Maringá é diferente da Lorenzi e diferente do Passo das Tropas”, tendo em conta a interrelação entre os elementos educação x realidade x diálogo. Com a influência da economia de mercado e da globalização nas políticas de governo, a representação social se faz cada vez mais necessária. “O estado neoliberal, se pudesse, largava tudo. O que nos segura é a Constituição, que garante as políticas sociais”.  

Mesa sobre EJA com as professoras Ana Paula e Lenir e mediação de Celma Pietczak. Crédito – Tânia Regina Silva

Textos: Paulo André Dutra e Bibiana Rigão Iop

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