Diário de Santa Maria: Retomada na rede municipal tem falta de professores e turmas sem aulas

Após quase dois anos sem aulas totalmente presenciais, o retorno do ano letivo municipal não poderia ser diferente: muita animação, reencontros e expectativas. Mas, por outro lado, velhos problemas ainda atormentam os estudantes santa-marienses que dependem da rede pública de ensino. Problemas estruturais, falta de professores, turmas aglutinadas e até mesmo sem aulas já no primeiro dia são situações comuns entre as 80 escolas da rede municipal, que voltaram a receber os alunos nesta quarta-feira.

A previsão é de que 20 mil estudantes retornem às escolas de Santa Maria nesta quarta-feira – 6 mil na Educação Infantil e 14 no Ensino Fundamental. A rede municipal de ensino movimenta ainda mais de 2 mil funcionários, sendo 1.543 professoras, 269 servidores públicos, 230 terceirizados e 280 estagiários.

Na EMEF Duque de Caxias, no bairro de mesmo nome, alunos do oitavo ano começaram o ano letivo no pátio coberto da escola. Não era uma atividade diferente, de acolhimento, mas o reflexo da falta de professores. Falta um profissional de matemática e um de arte, e outros cinco professores aguardam liberação do regime suplementar de trabalho para atuarem no local. Com isso, foi preciso aglutinar duas turmas em uma só, e não há sala que comporte os quase 50 estudantes. A solução foi improvisar mesas e cadeiras na área comum, ao lado do parquinho onde brincam as crianças do Ensino Infantil. Uma professora era responsável por atender a todos na manhã desta quarta.

– Temos um salão, que está sendo usado por outras duas turmas. Então estamos usando essa área coberta para essas outras duas turmas – explica a diretora Izabel Massirer.

Ao todo, o colégio tem 580 estudantes matriculados.

A animação também voltou a tomar conta da EMEI Darcy Vargas, no Bairro Rosário. Ainda de manhã, a turminha do pré-A se divertia com os brinquedos disponibilizados pela professora. O problema na escola é estrutural. A rede elétrica é antiga e passava por reformas na rede para comportar a instalação de um ar-condicionado. Mas, em dezembro, foram dois furtos que destruíram a nova fiação. A reforma parou em janeiro e os problemas seguem no retorno do ano letivo.

– As lâmpadas funcionam na rede elétrica antiga. Mas não temos como ligar dois ou três ventiladores ao mesmo tempo. Dá queda de luz e temos medo que aconteça alguma coisa mais grave. Compramos os aparelhos de ar-condicionado e estamos aguardando a conclusão da obra para poder instalar – relata a diretora Márcia Beck.

Por enquanto, a nova fiação fica exposta em partes do teto no corredor. São cerca de 350 crianças atendidas no local. Próximo dali, na EMEF Pão dos Pobres Santo Antônio, estudantes dos anos iniciais ouviam, junto aos pais, as orientações sanitárias para o retorno às salas. A volta foi escalonada, e estudantes dos anos finais voltam nesta quinta. São mais de 500 matriculados. O primeiro dia foi dedicado a atividades de acolhimento.

– Depois, os professores farão um diagnóstico do estágio de aprendizado das crianças, para aí sim começarmos realmente o ano letivo. São muitas defasagens. Ficaram muitas coisas para trás. Então, vamos tentar recuperar essas crianças. Pedimos a ajuda dos pais. Tem muita criança que está já em anos avançados e ainda não está alfabetizada – relata a diretora, Leandra Ilha.

TURMAS SEM AULAS

Na EMEF Fontoura Ilha, no Bairro Patronato, uma turma nem chegou a ir ao colégio. A professora se aposentou e a vaga não foi reposta, e o quinto ano inteiro, com cerca de 20 alunos, ficou em casa. A escola tem 490 crianças matriculadas e, conforme a diretora Cristiane Ferreira Almeida da Silva, faltam dois professores na manhã e entre seis e oito na parte da tarde. A situação foi parecida na EMEI Nosso Lar, no mesmo bairro. A falta de professores provocou a ausência de uma turma inteira. Todos os 18 alunos do Maternal 1, do turno da manhã, ficaram em casa. Até a contratação de novos professores, não existe previsão de início das aulas para a turma.

Já na EMEF Maria de Lourdes Bandeira Medina, no Bairro Chácara das Flores, os desfalques atingem mais de uma turma. Segundo a diretora Glaucia Suzana Fener da Silva os anos iniciais, de 1º ao 5º, encontram-se sem coordenador. As turmas de 4º e 5º ano estão totalmente sem aula, ação que desencadeou a volta dos alunos para casa. As turmas de 6º ao 9º ano não terão, por enquanto, aulas de língua portuguesa e ciências. Na EMEF Zenir Aita, faltam professores, secretária e um coordenador. As turmas do 1º e 4º tiveram de voltar para casa sem aula já no primeiro dia, e alunos das séries finais estão sem Educação Física e Artística.

– A criança chega com expectativa para o primeiro dia de aula, é triste ter que comunicar isso para os pais, ficamos impotentes nesse momento. É problema atrás de problema e a gente não consegue dar conta de tudo. Estamos fazendo todo tipo de trabalho, está sendo muito estressante – disse o diretor João Oliveira.

PROBLEMAS SÃO CONHECIDOS E SOLUÇÕES SÃO BUSCADAS

A secretária de Educação de Santa Maria, Lúcia Rejane da Rosa Gama Madruga, garante que a prefeitura trabalha para resolver os problemas nas escolas. Apesar de não estabelecer um prazo, a secretária afirma que os problemas, como o da Escola Darcy Vargas, são de conhecimento da secretaria

– É um problema histórico de nossas escolas. Os prédios são antigos. Mas estamos fazendo um trabalho com nossos engenheiros, e temos tranquilidade em dizer que os projetos estão em andamento. Esperamos que em breve consigamos superar essas questões – afirma.

Durante os dois anos sem a totalidade das aulas presenciais, prédios foram pintados e mais de 600 equipamentos de informática e 25 mil itens de mobiliário foram entregues para as escolas, conforme a secretária.

FALTA DE PROFESSORES NÃO É DE AGORA

A reposição imediata de professores não é possível por conta do processo legal necessário para isso. Conforme a secretária, há um fluxo contínuo de contratações de professores para as vagas em aberto.

– A situação da rede é algo que acontece durante todo o processo, não é apenas na abertura do ano letivo. A contratação de professores depende de um fluxo, que não é ligado só a Secretaria da Educação. Ao ser chamado para assumir uma vaga no município, a pessoa tem 45 dias para se apresentar. Esse descompasso que acontece é justamente por causa desse processo – justifica.

A secretária Lúcia Madruga também garante que o problema não afeta todas as escolas do município:

– Não é algo disseminado na rede. São questões pontuais. Estamos trabalhando incansavelmente para que se consiga solucionar – explica.

SINPROSM CALCULA FALTA DE 60 PROFESSORES

Segundo o Sindicato dos Professores Municipais de Santa Maria (Sinprosm), faltam 65 professores na rede municipal para dar conta de toda a demanda. De acordo com o coordenador de comunicação e formação do Sinprosm, Rafael Torres, uma reunião com os diretores das escolas foi organizada na última semana, em que foi informada a possível falta de trabalhadores. A razão, segundo o sindicato, seria que os pedidos de quantitativo enviados à Secretaria de Educação, no final do ano de 2021, ainda não foram atendidos e homologados. Conforme balanço do sindicato, faltam ainda 5 profissionais de Educação Especial, 4 coordenadores e 2 funcionários administrativos.

– Nos preocupa os próximos dias, as escolas estão se virando com o que tem e como dá, e aguardando que haja um processo mais sério pela Secretaria de Educação, para que as demandas que já foram enviadas com bastante antecedência possam ser atendidas para que os alunos não fiquem sem aula. A gente sabe que um ou dois dias as escolas conseguem se organizar para atender os alunos, mas é preciso uma resposta mais imediata – analisa Torres.

Por e-mail, a prefeitura informou que a defasagem ocorre tanto por aposentadoria, licenças ou afastamentos de diversas ordens. Conforme o Executivo, são feitos encaminhamentos diários às escolas de professores chamados nos editais já publicados e em processo de publicação. Não há uma estimativa precisa, pois o número oscila muito. “Já são mais de 650 professores aprovados em concurso público nomeados para atuar nas escolas desde o início da gestão”, afirmou a prefeitura.

#VEMPRAESCOLA

Está em andamento a campanha #VemPraEscola, que busca evitar a evasão escolar. A ação é uma continuidade da Patrulha da Matrícula, realizada no fim do ano passado. O trabalho consiste na busca ativa nas comunidades por crianças afastadas da rede de ensino. Equipes especializadas atuam no projeto.