Diário de SM: 6,5% dos estudantes pararam ou não foram localizados desde o começo da pandemia

Enquanto existe a demanda pelo retorno do ensino presencial, a realidade acusa os entraves para que isso aconteça. Em primeiro lugar, a própria pandemia que ainda persiste e o risco de contágio do coronavírus é um medo de trabalhadores das escolas. Além disso, os reflexos do momento pandêmico se instauram no cenário de escolas. A rede municipal retomou as aulas no começo de março. Em uma semana, escolas tiveram que ir atrás de alunos que não retornaram às salas virtuais ou não foram até as escolas para retirada de material. Direções e professores fazem a chamada “busca ativa” dos estudantes para incluí-los no ano letivo, mas já percebem como a pandemia afetou direta ou indiretamente na participação das crianças no ano escolar.

Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Sergio Lopes, no Bairro Renascença, a lista de chamada teve aumento no número de ausentes, mas não foi por estudantes que não quiseram voltar às aulas. O que a diretora Andreia Schorn chama de “reorganizações” foi um movimento causado pela pandemia e que afastou estudantes da escola.

– No final do ano, algumas crianças já estavam cansadas, com problemas, tanto de ordem alimentar em casa quanto no desespero de que a Covid circulava. Algumas famílias perderam entes queridos. Outras também ficaram tumultuadas porque, em função de reduzir renda e emprego, as pessoas se reagruparam. Em algumas casas, são muitas crianças, se juntaram duas famílias para morar no mesmo lugar, reduzir custo – exemplifica a diretora.

OUTROS PROBLEMAS

Além disso, também foi comum, segundo Andreia, estudantes de outras localidades que deixaram de procurar os materiais impressos no prédio da escola por falta de dinheiro para o transporte. No começo do ano letivo de 2021, a busca ativa foi mais difícil, já que o próprio retorno foi dificultado. Na Sergio Lopes, sete crianças não voltaram.

– Começamos a buscar essas crianças. É um trabalho de boca a boca. É chegar no vizinho, perguntar onde está morando agora, se alguém tem o telefone – conta Andreia.

Em um caso, a diretora conseguiu o contato da amiga da mãe do aluno. A partir disso, ela falou com uma vizinha da família, que havia se mudado para outra comunidade. Assim, a mãe foi contatada. Ela havia perdido a linha de celular antiga e o contato da escola.

– Combinamos um horário possível para entrega do material físico. Comemoramos no grupo dos professores porque achamos estudantes – Andreia lembra emocionada.

BUSCA ATIVA

  • É a estratégia do município, com uma rede de diferentes órgãos, para garantir continuidade nos estudos
  • Em formulário, foi mensurado que 1.088 alunos estavam ou não localizados ou pararam de fazer as atividades até o final de 2020
  • Esse número representa 6,5% do total da rede municipal, que é de 16,5 mil entre Educação Infantil e Ensino Fundamental
  • A taxa de retorno pelas famílias dos alunos “buscados” é de 65%

NÚMEROS POR ETAPA DE ENSINO 

  • Educação Infantil – 15,2%
  • Ensino Fundamental (anos iniciais) – 39,2%
  • Ensino Fundamental (anos finais) – 31,3%
  • EJA – 14,3%
  • Fonte: Programa de Controle de Evasão e Disciplina Escolar

Problema recorrente, pandemia vira fator de dificuldade para buscar os estudantes
Conforme a secretária municipal de Educação, Lúcia Madruga, o trabalho da busca ativa é permanente e envolve uma rede de educação e assistência social. Ela entende que “procurar por alunos” ficou mais difícil durante a pandemia:

– O problema se ampliou. A pandemia trouxe reflexos. O aluno não ir todo o dia na escola faz com que seja perdida essa relação mais intensa com o estudante. A busca ativa se faz mais necessária – explica.

A compreensão do município é que a dificuldade por parte das escolas depende de cada comunidade e dos movimentos causados pela pandemia, como mudanças sociais. Na prática, Lúcia acredita que essa busca “é de todos”.

– A identificação de quem são essas crianças é um trabalho permanente com as escolas. Quando a secretaria não consegue dar conta, é acionado o Conselho Tutelar. É um trabalho de formiguinha para inserção nas comunidades por diferentes mecanismos. As instituições não se reúnem só para discutir, são os caminhos que existem no contexto social para identificar os problemas – defende.

Na Educação Infantil, o desafio também é presente. A diretora da Casa da Criança, Elisa Kummer, conta que a dificuldade em casos de busca ativa é convencer os pais da importância do Ensino Infantil. A obrigatoriedade de matrícula começa a partir dos 4 anos.

A diretora da Escola Adelmo Simas Genro, no Bairro Nova Santa Marta, Edna Mara da Silva Borgias, sente falta de participação da comunidade escolar no formulário da prefeitura que busca indicar o interesse no retorno presencial, ou adoção do modelo híbrido. Edna também trabalha com o corpo de professores para conseguir chegar até os responsáveis pelos alunos:

– Buscamos o contato com a comunidade. Por Facebook, WhatsApp, telefone. Até ir às casas para que seja preenchido o formulário online ou físico – diz a diretora.

Além da busca pelos alunos, retorno presencial preocupa
A procura pelos alunos se insere em um cenário de cobrança dos profissionais da educação.

O entendimento de quem mantém as escolas em funcionamento é de que não é o momento adequado. Para a diretora do Sergio Lopes, o retorno não depende exclusivamente da classificação do modelo de Distanciamento Controlado.

– A gente tem muito medo, sabe da velocidade de contágio. Não tem leito. Para quais hospitais nós vamos? A gente sabe dos riscos que familiares das crianças correm. Toda casa tem um avô, uma avó, uma pessoa de risco. Toda vez que vemos notícias de que no Estado morreu uma professora dói na gente. Um professor que não tinha comorbidades, que não tinha excesso de peso, que era jovem. E o medo fica puxado de enfrentar – desabafa Andreia.

Rosicleia Tironi Dias, diretora do Núcleo Infantil da Escola Municipal CAIC Luizinho de Grandi, crê que a instituição até tem condições de manter os protocolos de biossegurança. Porém, ela reconhece que isso não é comum a toda a rede.

– Temos uma estrutura capaz de seguir os protocolos e cuidados. Mas é uma estrutura privilegiada – lembra a diretora.

O mesmo é dito por Elisa Kummer, da Casa da Criança. O questionamento da educadora, contudo, é sobre a efetividade do ensino presencial nas condições que são propostas, ainda mais no caso da Educação Infantil.

– As crianças aprendem a partir da troca e interação. Nós temos uma estrutura que mantem seis crianças e dois adultos, mas não conseguimos visualizar como vai ser. O ensino remoto não substitui jamais. Frustra por não sabermos como vai ser com a criança indo à escola uma vez por semana – lamenta.

Já Andreia avalia o cenário de crianças dos ensinos Infantil e Fundamental, no caso da Sergio Lopes. Para ela, o modelo híbrido não seria eficiente:

– Ficamos pensando no risco na efetividade. Pelas salas que temos, uma criança viria à aula uma vez por semana em período reduzido. Não acredito que isso vai ser eficiente nas lacunas dela. Nesse momento a gente pede ensino remoto, até que a comunidade da educação seja vacinada. Este ano, a vacina existe, e a única solução é a vacinação.

ADEQUAÇÃO

A secretária Lucia Madruga afirma que a adaptação das escolas, no momento propício para o retorno, será de acordo com os planos de contingência apresentados pelas instituições. Todas já os entregaram à Secretaria Municipal de Educação (Smed), que deve garantir a autonomia das próprias escolas apontarem sua capacidade para o ensino presencial. Na Sergio Lopes, por exemplo, há salas em que as básculas das janelas não abrem, o que impede a ventilação.

– É a forma mais segura de ter janelas nas escolas. Muitas salas não poderão ser usadas, mas contamos com autonomia da escola estabelecer a adequação. Quando for possível, terão escolas com menos presencial e mais remoto, porque a estrutura não permite. Eu não posso dizer, hoje, que vamos resolver todas as escolas, todas as janelas. Seria, no mínimo, irresponsável – explica Lucia.

O próximo passo das escolas é apresentar à SMEd os planos de ação. A partir disso, o município terá a mensuração de quantas salas ficarão disponíveis conforme a quantidade de alunos.