A Escolha certa nas urnas: por democracia e soberania, por acesso e preservação de direitos
Em 2026 celebramos 204 anos da independência política do Estado Brasileiro; o porte da soberania alcançamos há 201 anos, em 1825. A democracia consolidou-se com a constituição, há apenas 36 anos. Neste período de história muitos momentos de lutas, de importantes conquistas, mas também de autoritarismo, de sonegação de cidadania aos cidadãos, de tolhimento do direito a escolha de representantes. Estamos a uma quinzena de vivenciarmos o dia de depositarmos nas urnas os votos que se traduzirão em representações para os próximos anos. Participar dos processos eleitorais importa? Quantos e quem são os candidatos que se propuseram a construir e gerir os destinos do país, dos estados e do distrito federal? Como fazer a opção certa? Que critérios embasam a teu voto, a tua participação?
Aproxima-se o momento de 159 milhões de brasileiros – 81,8 milhões de eleitoras e 74 milhões de eleitores – procederem a escolha de seus representantes legislativos ao Senado Federal, à Câmara, e, às Assembleias Estaduais e distrital. Da mesma forma, definir governadores para os 27 estados e distrito federal e eleger o Presidente da República.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), houve uma redução nos números de candidaturas oficializadas em torno de 30% em comparação ao ano de 2022. Assim, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrou 20.984 candidaturas. Dentre estas temos 13 ao cargo de Presidente da República; 195 a governador de estado e distrito federal; 314 a senador; 7.627 a deputado federal e, 11.090 a deputado estadual e distrital.
Na tabela abaixo um comparativo breve:
Na história democrática brasileira a reeleição tem sido prática recorrente há quase três décadas. Sendo possibilitada por dois mandatos consecutivos para a presidência da república e governadores dos estados e distrito federal e ilimitados aos cargos legislativos. Neste pleito, o atual presidente concorre e todos que poderiam ser reconduzidos ao cargo estarão concorrendo. Podemos observar na tabela que, de forma geral, para as funções legislativas a busca pela reeleição está em torno de 80%.
No viés da crítica, nos dados do TSE consta que 8,1% dos candidatos referem como ocupação/profissão um cargo eletivo (deputado ou vereador), uma espécie equivocada de profissionalização de um cargo representativo, transitório, que se transformou para alguns em carreira. Frente a um descontentamento com a atual atuação política, especialmente do Congresso Nacional, muitas vezes alcunhado de “inimigo do povo”, fica a expectativa de um processo de renovação, que das urnas emerjam eleitos mais sensíveis as demandas e aspirações da maioria da população, que é a classe trabalhadora.
No entanto, não sejamos ingênuos. Não caiamos no discurso anti-política e anti-políticos: quem assim prega, sabe que a política rege a vida de todos nós e está sobremaneira interessado no desânimo, no descrédito, na abstenção da opinião e da postura consciente de cada um frente aos projetos e às urnas. Há candidatos buscando a reeleição que ao longo de seu mandato, efetivamente se comprometeram com ações e que nenhuma sociedade se afirma sem o aprimoramento de suas leis, de suas políticas e investimentos em educação, saúde, cultura, ciência, pesquisa e tecnologia. Dar continuidade também significa aprimorar, estar atento às mudanças e nuances que inovações tecnológicas e relações internacionais têm posto à mesa. Porém, o objetivo de uma nação soberana é que todos esses avanços sejam colocados a serviço, efetivamente, da qualidade de vida de toda população.
Assim, como fazer a escolha certa? Temos clareza do projeto, do mundo que gostaríamos de viver, de utopias, de sonhos pelos quais batalhamos lado a lado com muitos outros? Paulo Freire nos diz que pensar certo é saber que a falta de corporeidade do exemplo pouco ou quase nada valem… pensar certo é fazer certo. Eduardo Galeano, corrobora fazendo a constatação que “… palavras e atos tão raramente se encontram. E, quando se encontram raramente se saúdam por que não se reconhecem. (E Galeano, 2006). Mais que necessária, fundamental: a análise atenta da trajetória de candidatos, programas e posturas de seus partidos.
É fundamental conhecer a trajetória de quem pede o nosso voto, lembrar quem (cargo e partido) esteve ao nosso lado e quem apoiou projetos que minimizaram políticas públicas, retiraram direitos dos trabalhadores e enfraqueceram o funcionalismo, o funcionamento e a estrutura dos serviços públicos. É imprescindível rememorar a prática testemunhal de candidatos, aquilo que os re-diz em lugar de desdizê-los. “É necessário que fique claro que as diferenças de classe não podem ser negadas e que estas diferenças têm a ver com os projetos políticos, com as metas de governo, com a composição deste. Que uma coisa é o discurso eleitoreiro, demagógico de um candidato, outra é sua prática se e quando eleito.” (Freire, 1996, p.23 e 24)
Uma cidadania crítica, consequente, “exige acompanhar a atuação da pessoa em que votamos, independente do cargo; vigiar seus passos, gestos, decisões, declarações, votos, omissão, conivência com erros. Cobrar suas promessas, avaliá-lo com rigor para neles de novo votar ou negar-lhes o nosso voto. Negar-lhes o nosso voto e comunicar-lhes a razão da nossa posição. Mais ainda, tornar, tanto quanto possível pública, nossa posição. ( Freire, 2000b, p.50)
Ainda, ensina Freire, ter consciência que “… entre mim e o candidato em que voto há muito mais do que uma relação afetiva ou de gratidão. Se sou grato a uma pessoa reacionária posso e devo manifestar minha gratidão a ela. Mas minha gratidão não pode estar envolvida com o interesse público. Se minha utopia, meu sonho, pelo qual luto ao lado de tantos outros, são o contrário antagônico do sonho que não é só meu. Não tenho o direito de expô-lo para pagar uma dívida que é só minha. Votar em A ou B não é uma questão de ajudar A ou B a se eleger, mas delegar a alguém, em certo nível de poder político, na democracia, a possibilidade de brigar por um sonho possível. Em nenhuma hipótese, pois, devo e posso votar em alguém que eleito ou eleita, vai brigar contra meu sonho. (Freire, 2000, p.21).
Uma vez que a luta de classes é permanente, a nenhum de nós cabe apenas o papel de espectador, precisamos assumir protagonismos, fazer leituras de mundo, dialogar com colegas de profissão, reconhecer-se como classe trabalhadora e postar-se junto a seu coletivo em defesa e na construção de uma sociedade emancipada, que combata às injustiças em suas múltiplas dimensões. Preservar nossas conquistas, permanentemente ameaçadas, passa pelo ato de disputar a consciência política da classe trabalhadora que está constantemente submetida às narrativas, aos discursos, e argumentos dos setores mais abastados da sociedade por meio dos seus representantes na imprensa, nas redes, nos parlamentos e executivos locais.
Nossas experiências, como brasileiros nos deixam um alerta: o futuro exige coragem, memória e luta. Porque quem esquece os ataques de ontem abre caminho para que eles se repitam amanhã. Relembrar o passado é um compromisso com o futuro. Muitas vezes …“nós não percebemos o ‘parentesco’ entre os tempos vividos e perdemos assim a possibilidade de ‘soldar’ conhecimentos desligados e, ao fazê-lo, iluminar com os segundos, a precária claridade dos primeiros.” (Freire, p.19, 1999) Não recebemos democracia e soberania de presente, lutamos por elas; resistimos e construímos.
Sabemos que há barreiras de difícil superação para o cumprimento da tarefa histórica de ‘mudar o mundo’, de que a vida se transmute em desenvolvimento integral de toda sociedade brasileira, mas também somos cientes que os obstáculos não se eternizarão frente a consciência, a organização e mobilização dos trabalhadores. Nenhum projeto que ignore nossas demandas pode representar o futuro que queremos para o país e para o estado. E, no decorrer dos quatro anos de governos e mandatos temos por função participar e tensionar o establishment na recuperação e repactuação de direitos, assim como avançar em conquistas. A luta não acontece apenas nas escolas, nos postos de trabalho, nas ruas e nas redes. Ela também se faz nas urnas!
Referências:
1.Agência Senado
- Freire, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários a prática educativa. 15 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
- Freire, Paulo. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. 10 ed. São Paulo: Olho d’água, 2000.
- Freire, Paulo. Pedagogia da Esperança. 6 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
- Sineta CPERS sindicato, agosto 2026.







